TELA – Teatro Estranhamente Absurdo - PALMELA / BARREIRO
Uma sátira social em «busca» da actualidade
O grupo de teatro – TELA – Teatro Estranhamente Absurdo, sediado em Águas de Moura, concelho de Palmela, dirigido por Luciano Barata, há 9 anos, levou a cena na SDUB “Os Franceses”, no Barreiro, o espectáculo – “Não pagamos! Não pagamos!”, de Dario Fo.
A peça “Não pagamos! Não pagamos!”, é divertida, tem intensidade dramática.
Uma sátira social que nos coloca perante o maniqueísmo patronato-operário de forma divertida e cómica.
Os actores vestiram os personagens deram-lhes autenticidade.
A brincadeira com o drama psico-social e os jogos de relacionamento dos personagens, prendem-nos, divertem-nos, aguçando a curiosidade sobre qual o sentido final do espectáculo.
A encenação está sóbria e permite a fluidez do ritmo da peça, contextualizando com o espaço exterior onde decorrem acontecimentos que marcam o próprio desenvolvimento da história.
A Antónia (desempregada), interpretada por Ana Carlos, tem um desempenho brilhante, segurando de forma muito firme a personagem e dando-lhe toda a vivacidade.
A Margarida (outra desempregada), assumida por Ana Monteiro, nota-se alguma timidez, mas vive a personagem com intencionalidade.
O João (Operário, Sindicalista e Marido de Antónia), papel vivido por José Santos, nota-se que vai «soltando-se» ao longo da peça, assumindo com algum retraimento o papel numa primeira fase, mas «soltando» o personagem e vivendo-o de forma intensa a partir do momento que assume o seu lugar na cozinha. A partir daí torna-se mais vivo e mais natural.
O Graduado da Policia/Sargento da Guarda/Pai, papeis desempenhados por Nuno Pacheco, são diversificados na sua presença em palco.
O policia é muito arrastado, e, ainda por cima teve o azar de o bigode lhe pregar uma partida.
O Sargento Guarda está espectacular, vivido de forma intensa, na dicção e bastante expressivo.
O pai está um pouco forçado, mas, acaba por estar adequado ao papel.
Nuno Pacheco consegue ser versátil na duplicidade de papeis e tem nota global positiva.
O Luís (Operário e marido de Margarida), vivido por João Martinho, é um personagem vivido plenamente, parece ser já um veterano em palco, espaço que domina e onde, sente-se, está confortavelmente, como peixe na água.
O Cangalheiro, papel desempenhado por Frederico Sombreireiro, está na dimensão do personagem.
Gostei do trabalho de actores. Estão perfeitos. No geral dominam as personagens e conseguem manter o ritmo e a exigência do espectáculo.
Um trabalho divertido com uma encenação que dá espaço para que as personagens possam respirar e as situações sejam vividas com ritmo.
O clima plástico da peça é realista enquadrando a acção no espaço e no tempo.
Quanto aos sons do exterior sentimos a ausência de protestos dos habitantes do Bairro, porque os únicos sons que nos chegam são as sirenes da «policia» e os avisos das buscas. Parece que só há acção policial e que esta não tem qualquer oposição, nem gera burburinhos dos habitantes do bairro.
Mesmo os actores – personagens – quando falam do exterior só comentam a presença de forças policiais.
A introdução de «actualidade» no texto parece um pouco forçada, independentemente, das contextualizações e interpretações que cada pessoa do público possa fazer, de acordo com os seus valores e opções. É o elo mais fraco da peça.
As personagens têm autenticidade. A encenação está sóbria. As interpretações estão excelentes.
O espectáculo é divertido. A «actualização do texto» surge estereotipada.
A intensidade dramática da peça e o seu ritmo fluído, não ganham com uma «linguagem» que empurra o espectador para um contexto inexistente.
Muito divertido.
Mas, em suma, é um espectáculo para ver e sobre a sua mensagem reflectir.
Porque, afinal, no teatro é importante que sinta quem vê…
Parabéns ao Luciano Barata e ao TELA, foi uma noite agradável